
OBSERVADOR - João Pedro Vala

A ARTE DE UMA PANDEMIA PASSADA. Com ilustrações de Felipe Parucci, esta é a história dos três meses em que Luís Moreira Gonçalves se voluntariou para a combater — e mostra as virtudes literárias da novela gráfica.

A pandemia de covid-19 teve este efeito peculiar, mas não surpreendente: durante dois anos, concentrou todo o discurso público e privado, todas as preocupações quotidianas e todos os esforços artísticos. No entanto — e ao contrário do que alguns prognosticavam, anunciando que o medo do contacto físico e o álcool gel durariam até ao fim dos tempos —, no dia em que a Organização Mundial de Saúde decretou o fim da pandemia, esta já era uma recordação distante, quase onírica, que todos nos esforçávamos silenciosamente por ignorar.
Talvez seja essa a justificação para a escassez de artigos noticiosos e obras artísticas que evoquem esse tempo distante, uma vez que tudo isso traz à tona a irritação que sempre sentimos por aquela tia muito simpática que mal espirramos à sua frente nos oferece simpaticamente um lenço e uma máscara.
Em certo sentido, a nossa rejeição desse tempo é, pelo menos de um ponto de vista artístico, lógica. Naqueles dois anos, a humanidade revelou uma faceta grotesca que hoje parece caricatural demais, longínqua demais, para que ecoe nos nossos corações sem que o som saia distorcido. O potencial literário de conceitos como "distanciamento social" ou "açambarcamento de enlatados" pouca ressonância tem nos nossos corações, já esquecidos do trauma desses tempos tão distantes.
Assim, à primeira vista, uma novela gráfica como Dormindo entre Cadáveres — até pela capa onde um homem com uma bata de médico dorme rodeado de esqueletos com máscaras FFP2 — causar-nos-ia imediatamente repulsa. No entanto, se a novela gráfica ilustrada por Felipe Parucci conta a história dos três meses em que Luís Moreira Gonçalves se voluntariou para suspender a sua carreira académica e voltar a exercer medicina na linha da frente num hospital sem grandes condições em plena Rondónia (um dos estados mais afetados pela pandemia do Brasil, um dos países mais afetados pela pandemia), Dormindo entre Cadáveres é também, ou sobretudo, uma história sobre impotência.
Apesar de as páginas que poderíamos designar de prólogo serem relativamente desinteressantes, permitem desde logo estabelecer um ponto de partida: Luís Moreira Gonçalves tem uma história para contar, mas, por falta de talento, é incapaz de a contar sozinho — através de uma narrativa ficcional, por exemplo —, pelo que pede ajuda a um ilustrador que admira. Isto permitiria iniciar uma discussão sobre as virtudes da novela gráfica enquanto veículo literário, mas deixaremos esse tópico para outras núpcias. O que me interessa sublinhar é que à escolha da forma subjaz uma ideia de impotência, de incapacidade.
E isso é importante porque permite adequar a forma ao conteúdo, visto que toda a história centrar-se-á na impotência que Luís Moreira Gonçalves sentiu na linha da frente: por não exercer medicina há muito tempo; por se ver rodeado de um grupo de colegas excêntrico e não extraordinariamente qualificado; por não saber o que prescrever aos pacientes; por não conseguir drenar um pneumotórax; por ter sempre sono; e por todo o seu trabalho se assemelhar tanto a alguém que tenta travar uma cascata com uma peneira, o que acabará por gerar em Luís sentimentos de culpa pelas vidas que se perdem, mais do que orgulho ou coisa que o valha pelas vidas que periclitantemente perduram.
Além disso, a opção pela novela gráfica permite subtilezas que de outra forma se tornariam ou espalhafatosas ou demasiado gastas. Pense-se, por exemplo, no episódio mais forte do livro, em que Luís decide entubar um paciente, que se entrega nas suas mãos e lhe pede desesperadamente para que Luís não o deixe morrer (o que, claro, acabaria por acontecer). Ora, há nessa cena duas opções que resultam graficamente, mas que noutro veículo dificilmente funcionariam. Falo da representação da solidão de Luís antes de ser obrigado a comunicar o óbito aos familiares do paciente (p. 107), onde o ponto de fuga e a lenta progressão de Luís ao longo de um corredor fazem as vezes das metáforas estafadas que decerto leríamos caso Dormindo entre Cadáveres fosse um romance.

E falo também, e sobretudo, de um pormenor gráfico (p.84, canto inferior direito) no qual, ao saber que será entubado, o paciente arranha com força os lençóis e vemos entre os dedos o que os meus parcos conhecimentos médicos imaginam ser um doseador de cateter, mas que os nossos olhos treinados para o catolicismo confundem com um terço, como se nos fosse dito ao mesmo tempo que, naqueles anos tão estranhos, medicina e religião pareciam sinónimos, no sentido em que era numa que depositávamos o que deveria pertencer à outra (escolha o leitor onde colocar os elementos desta frase), mas também que aquele homem se preparava para conhecer o que se esconde atrás da morte.
Contudo, talvez os episódios mais interessantes do livro sejam os, por assim dizer, supra e pós-pandemia, isto é, os momentos em que o protagonista conta as suas desventuras a lidar com a burocracia que paira sobre a narrativa e que ameaçava despedi-lo por estar há demasiado tempo de licença sem vencimento; ou quando narra a mesquinhez com que tentam afastá-lo do hospital assim que a pandemia abranda e o seu posto se torna financeira e profissionalmente apetecível; ou quando nos apresenta o médico que troça do protagonista por considerar que o seu serviço humanitário foi só para a fotografia; ou quando sabemos que Luís se afoga no trabalho para esquecer o horror que vivera.
No fundo, a preciosidade está nos momentos em que a vida pandémica quase se confunde com a nossa vida quotidiana e corriqueira, como por vezes acontece quando, ao vasculharmos no porta-luvas à procura de uns óculos escuros que teimam em não aparecer, encontramos, amarfalhada a um canto por trás de um disco que já nunca ouvimos, uma máscara azul, já cinzenta de tanto pó acumulado e com o elástico quase a rasgar, que nos leva de volta para esses dias em que pivôs engravatados nos falavam, muito sérios, da bravura da solidão.

